Por Percival Puggina
Viver numa democracia é privilégio cada dia mais raro. Minha geração cresceu bebendo democracia à americana, de canudinho, como Coca-Cola ou saboreando à europeia, como barrinha de chocolate suíço. Europa Ocidental do pós-guerra e Estados Unidos eram as referências culturais e políticas. Hoje, o Ocidente oferece sua cultura, tradição, princípios, valores e convicções em sacrifício no altar do multiculturalismo, do globalismo e os EUA só não estão fazendo o mesmo porque Trump não está deixando. O balaio de renúncias descarta, igualmente, a Verdade e o Bem. Vá e veja. Informe-se e saiba.
Em 2019, ano que marcou o fim de uma era no Brasil, as poucas virtudes nacionais foram jogadas num corredor polonês como resíduos da “ultradireita”. Observe, nestes dias, a conduta de quantos – quantos! – racharam os dedos aplaudindo os excessos no uso do poder do Estado, mesmo quando aplicado com voluntariedade de causar arrepios à mais prosaica letra da mais corriqueira lei. O que antes era defendido com unhadas e dentadas retóricas em qualquer microfone ou mesa de bar, agora é afastado com fingido desprezo, que parece extraído de uma página de Esopo: “Não estou acompanhando”. Uvas maduras da hipocrisia…
A experiência da modernidade mostra que, fora dos controles, o poder age como o álcool sobre o alcoólatra de quem demanda doses crescentes do vício com o qual se perdeu. O título deste artigo reproduz o título de um livro importante, ao qual o autor acrescentou subtítulos que informam sobre o conteúdo abordado nessa contradição em termos do título principal: Natureza e origens; e Psicopatologia e Psicologia Social.
Tive o privilégio de desfrutar, durante vários anos, do convívio frequente e da amizade do saudoso José Antônio Giusti Tavares, autor de Democracia Totalitária. Ele era doutor em Ciência Política, destacado professor, escritor de inúmeras outras obras e um incansável garimpeiro da verdade. Nessa bateia encontrou à fé dos Apóstolos.
Publicado em 2015, o livro entrega seu produto, também, à posteridade. Ao relê-lo, passada uma década da primeira leitura, percebo que a competência do amigo Tavares se revela ainda mais contundente, como se o escrevesse mirando o Brasil de 2026. Quando escrutina as características das sociedades de massa e as consequentes perdas da individualidade, Tavares aponta as dificuldades inerentes à compreensão da democracia por pessoas simples, levando-as a preferir líderes e regimes totalitários, que reduzem os riscos e as incertezas inerentes ao exercício da liberdade. Páginas adiante, salta aos olhos do leitor de hoje o retrato falado do líder paranoico, missionário de uma causa para cujo êxito “deve eliminar inimigos perigosos, que conspiram contra ele num conflito do qual resultará como único sobrevivente” …
Por isso, numa sociedade de massa, em que as misérias cultural, material e moral caminham lado a lado, aos tropeços, em meio à mistificação e autoritarismo, mais do que nunca, esclarecer é preciso. A marcha firme, corajosa e virtuosa de Nikolas Ferreira é um exemplo de quanto podem um homem e sua fé.
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Origem: https://www.rsnoticias.top/2026/01/democracia-totalitaria-260126.html