Por Alex Pipkin, PhD em Administração
O maior empobrecimento intelectual do nosso tempo não é a falta de informação, é o excesso de certezas baratas.
Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento e, ainda assim, tornou-se raro encontrar quem esteja disposto ao trabalho mais exigente que existe; o de pensar por conta própria. Pensar, no sentido pleno, é um ato de coragem, porque quase sempre nos afasta do conforto das maiorias, e das respectivas certezas “da massa”.
As redes sociais prometeram ampliar horizontes, mas, silenciosamente, estreitaram muitos deles. Criaram ambientes onde quase tudo confirma o que já acreditamos. O contraditório passou a soar como afronta; a dúvida, como fraqueza. Pertencer aquece, já pensar expõe. E, pouco a pouco, o conforto emocional passou a valer mais do que a verdade, nua e crua.
Sigmund Freud, ao estudar a psicologia das massas, observou que o indivíduo, quando imerso no coletivo, tende a abdicar do próprio julgamento. A massa não pensa no sentido rigoroso; ela absorve, repete e amplifica. Não porque seja composta por pessoas incapazes, mas porque o pertencimento produz uma espécie de anestesia crítica. Pensar dá trabalho; seguir a corrente oferece alívio imediato.
Faz pouco ouvi um jovem universitário repetir, com firmeza inabalável, um slogan político sobre um dos conflitos mais complexos do mundo. Havia convicção em sua voz embargada… verdadeiramente, a solidez enganosa das certezas nunca examinadas. Cantava “do rio ao mar” como quem enxerga a realidade com clareza absoluta. Perguntei, sem ironia: que rio? que mar? Ele não soube responder.
Não era ignorância no sentido comum. Era algo mais sutil. Era a substituição da compreensão pelo pertencimento.
Os jovens sempre desejaram melhorar o mundo, e há grandeza nesse impulso. O risco começa quando o idealismo perde a curiosidade; quando a causa chega antes da pergunta e a resposta antecede o entendimento. Nesse instante, a mente deixa de ser um território de descoberta e passa a funcionar apenas como um eco.
A história nos lembra, com frequência espartana, que erros persistentes raramente nascem da maldade. Nascem, quase sempre, de convicções apressadas protegidas pela sensação de virtude.
Existe uma sedução poderosa em terceirizar o próprio julgamento. Aderir é fácil; pensar exige coragem e disciplina. Aderir oferece segurança imediata; pensar, muitas vezes, exige suportar a solidão. Mas é justamente nessa solidão que a autonomia se forma. Quem não tolera ficar intelectualmente só dificilmente descobrirá se suas ideias são realmente suas.
Precisamos reaprender o valor de uma pausa séria. Esse é quase um ato de responsabilidade intelectual. Antes de compartilhar uma “certeza”, investigue. Antes de defender uma ideia, conceda espaço à dúvida. Antes de pertencer, pergunte a si mesmo se houve realmente um pensamento embasado em conhecimento, lógica e fatos, ou se trata apenas da aceitação confortável de uma narrativa enlatada.
Talvez a divisão mais profunda do nosso tempo não esteja entre ideologias opostas, mas entre duas posturas diante da vida. Sim, entre aqueles que examinam o que acreditam e os que apenas repetem o que ouviram, no estilo do velho e errático “telefone sem fio”.
Pensem, pensem nisso. Porque liberdade intelectual não é dizer o que se pensa.
É, antes de tudo, ter pensado, com rigor e coerência, antes de dizer.
Pontocritico.com
Origem: https://www.rsnoticias.top/2026/02/antes-de-pertencer-pense-100226.html