No prosseguimento do assunto concernente à Força Expedicionária Brasileira (FEB) e suas glórias, trataremos, sucintamente, do faseamento das operações da 1ª DIE na Itália. Porém, antes, é necessário que façamos uma visada-à-ré, na complementação dos pródromos da guerra, em relação ao Brasil. O motivo é que apenas bordejamos, ligeiramente, a postura brasileira em relação ao Japão, posto que o nosso país declarara guerra somente à Alemanha e à Itália, em face, essencialmente, dos torpedeamentos de navios mercantes brasileiros.
O Eixo ROBERTO (Roma, Berlim, Tóquio) incluía um país – o Japão – que não nos atacara, razão pela qual não havíamos decretado o “estado de beligerância” contra ele. Todavia, em 6 de junho de 1945 (exatamente no mesmo dia em que, no ano anterior, houve o célebre desembarque aliado na Normandia (denominado de “D-Day” – “O Dia D”), foi baixado um decreto que continha mais uma declaração de guerra, desta feita ao Japão; era a segunda, um mês depois da rendição da Alemanha. Entretanto, não foi necessário o deslocamento de tropas nem de meios de qualquer natureza para um novo Teatro de Operações no Oriente. Contudo, chegou-se a cogitar do envio de pilotos da novel Força Aérea Brasileira (FAB), criada em 1941. Mas com os lançamentos das duas bombas atômicas sobre o Japão, que resultou no fim da guerra , os jovens pilotos da FAB não partiram para o cumprimento de presumíveis missões bélicas. A propósito, relembremos, de escantilhão, do 1° Grupo de Aviação de Caça (1° GAvC) – o “Senta a Púa” – e da ELO (Esquadrilha de Ligação e Observação – “Olho Nele” (era o seu brado de guerra) – composta por 3 pilotos da FAB), integrada à Artilharia Divisionária (AD) – com 4 Unidades de Artilharia incorporadas -, para observação aérea do campo de batalha e contribuição na regulação dos tiros longos, largos e profundos dos obuseiros.
As relações diplomáticas entre Brasil e Japão (país que na propaganda dos aliados era tachado de “o perigo amarelo”) só foram formalmente reatadas em 1952, encerrando-se, destarte, um indesejado e prolongado litígio com uma nação muito amiga e ligada conosco por fortes laços afetivos, eis que a maior população de descendentes nipônicos (a “colônia japonesa”, dos nissei e sansei) fora do Japão, encontra-se no Brasil, exemplo berrante de um país de imigração, como também os EUA. E triste ironia do destino: o Brasil tornou-se inimigo de três países (Alemanha, Itália e Japão) que lhes são unidos, umbilicalmente, mercê da emigração que nos aproxima, há muito tempo…
Na visão do marechal Castello Branco, que como tenente-coronel foi o “E-3” – oficial de Operações da 1ª DIE -, esta vivenciou quatro fases na sua atuação em solo italiano, a saber: 1ª fase: operações no vale do rio Serchio; 2ªfase: idem, no vale do rio Reno; 3ª fase: idem, ibidem, no vale do rio Panaro e 4ª fase: a “Perseguição”, ao Sul do rio Pó. No desenrolar dessas operações, nossos soldados passaram por imensos sacrifícios. Quanto a isso, afirmou o general Mascarenhas de Moraes, em seu livro “A FEB pelo seu Comandante”: ” Para os que não sabem avaliar o esforço da FEB, pois não se situaram, como nós, na mais cruenta frente de batalha da Europa Ocidental, só posso dizer que a FEB não teve um só dia de descanso em sua campanha na Itália” (o grifo é nosso). Na 1ª fase, ainda como “Destacamento FEB”, avançamos 40 Km, fizemos 208 prisioneiros e conquistamos várias cidades e vilas tais como Camaiore, Massarosa, Fabriche, Fornaci, Gallicano, Barga e San Quirico e os montes Prano e Acuto. A 2ª fase, ao longo do rio Reno, na região dos contra-fortes de Belvedere, Monte Castello e Castelnuovo, foi a mais terrível da campanha expedicionária e teve o seu glorioso epílogo, em 21 de fevereiro de 1945, com a conquista de Monte Castello, após 12 horas de batalha e 3 meses de ingentes esforços que nos roubaram 263 preciosas vidas e nos fizeram mais de um milhar de feridos. A queda de Monte Castello foi um momento emocionante vivido pela FEB, após 4 ataques desencadeados nos meses de novembro e dezembro, um deles, o terceiro, somente ao encargo de nossa tropa. Havíamos rompido a famigerada “Linha Gótica” (tais eram as culminâncias que a compunham, nos montes Apeninos, daí essa nomenclatura)! Já no dia seguinte, liberada a importante Rodovia 64, da observação e dos fogos do inimigo, o IV Corpo de Exército norte-americano pôde então partir, celeremente, para Bolonha, o seu grande objetivo. Na 3ª fase, ao longo do rio Panaro, sem perda de tempo, a 1ª DIE se deslocou para o Norte em direção a Zocca e conquistou Marano e Vignola (era a “Ofensiva da Primavera”). Em 14 de abril de 1945, foi travada a mais sangrenta das batalhas, a de Montese, cidade a 1.200 metros de altitude, um verdadeiro “ninho de águias”. A sua conquista, por isso, exigiu muito denodo e inaudita bravura dos Pelotões de Infantaria e do Esquadrão de Cavalaria Mecanizado. Capturamos 107 prisioneiros e sofremos 426 baixas, aí inclusas as ocorridas na fase preliminar dos combates, cumprindo lamentar a morte de 3 heroicos Infantes: o tenente Ary Rauen, o Aspirante Francisco Mega e o Sargento Max Wolff Filho (em missão de patrulha de reconhecimento na antevéspera do combate). Para que não percamos a fluidez da leitura, ao depois abordaremos as ações dos citados heróis e mais as do também heroico tenente-coronel de Infantaria Nestor da Silva (promovido por bravura e em combate, pelo general Mascarenhas de Moraes, de 2° sargento a 2º tenente); ele, após a guerra e ao longo de sua brilhante vida militar, concluiu o curso básico de paraquedismo! Hoje, do alto de seus 108 anos de existência, é, sem dúvida, um notável exemplo para as novas gerações de militares e civis do Brasil! A 4ª fase foi a da ‘Perseguição’ ao inimigo – em rápida retirada ao Sul do rio Pó, e se desenvolveu na direção geral Vignola – Alexandria. A Divisão progrediu com incrível velocidade, pois utilizou, por feliz decisão de seu comandante, os caminhões da Artilharia, a fim de transportar os infantes, rapidamente, para a região de Collechio-Fornovo-Respício. Em Fornovo di Taro (província italiana de Parma, banhada pelo rio Taro – um longo afluente do rio Pó), deu-se, em 28, 29 e 30 de abril de 1945, a Rendição ou Capitulação, incondicional e em combate, da 148ª Divisão de Infantaria e remanescentes da 90ª Divisão Panzer Granadier, ambas do Exército alemão, comandadas pelo general Otto Freter Pico, e da Divisão Bersagliere “Itália”, ao comando do general Mário Carloni. [Sugerimos que acompanhem o texto linhas antes apresentado, com o auxílio do importante, belo e colorido mapa/documento “Roteiro da F.E.B. na Campanha da Itália”, assinado pelo marechal Mascarenhas de Moraes, na copiosa literatura a respeito da Força Expedicionária Brasileira; analisaremos a Rendição alemã-italiana no próximo artigo].
Coronel Manoel Soriano Neto – Historiador Militar
Na visão do marechal Castello Branco, que como tenente-coronel foi o “E-3” – oficial de Operações da 1ª DIE -, esta vivenciou quatro fases na sua atuação em solo italiano, a saber: 1ª fase: operações no vale do rio Serchio; 2ªfase: idem, no vale do rio Reno; 3ª fase: idem, ibidem, no vale do rio Panaro e 4ª fase: a “Perseguição”, ao Sul do rio Pó. No desenrolar dessas operações, nossos soldados passaram por imensos sacrifícios. Quanto a isso, afirmou o general Mascarenhas de Moraes, em seu livro “A FEB pelo seu Comandante”: ” Para os que não sabem avaliar o esforço da FEB, pois não se situaram, como nós, na mais cruenta frente de batalha da Europa Ocidental, só posso dizer que a FEB não teve um só dia de descanso em sua campanha na Itália” (o grifo é nosso). Na 1ª fase, ainda como “Destacamento FEB”, avançamos 40 Km, fizemos 208 prisioneiros e conquistamos várias cidades e vilas tais como Camaiore, Massarosa, Fabriche, Fornaci, Gallicano, Barga e San Quirico e os montes Prano e Acuto. A 2ª fase, ao longo do rio Reno, na região dos contra-fortes de Belvedere, Monte Castello e Castelnuovo, foi a mais terrível da campanha expedicionária e teve o seu glorioso epílogo, em 21 de fevereiro de 1945, com a conquista de Monte Castello, após 12 horas de batalha e 3 meses de ingentes esforços que nos roubaram 263 preciosas vidas e nos fizeram mais de um milhar de feridos. A queda de Monte Castello foi um momento emocionante vivido pela FEB, após 4 ataques desencadeados nos meses de novembro e dezembro, um deles, o terceiro, somente ao encargo de nossa tropa. Havíamos rompido a famigerada “Linha Gótica” (tais eram as culminâncias que a compunham, nos montes Apeninos, daí essa nomenclatura)! Já no dia seguinte, liberada a importante Rodovia 64, da observação e dos fogos do inimigo, o IV Corpo de Exército norte-americano pôde então partir, celeremente, para Bolonha, o seu grande objetivo. Na 3ª fase, ao longo do rio Panaro, sem perda de tempo, a 1ª DIE se deslocou para o Norte em direção a Zocca e conquistou Marano e Vignola (era a “Ofensiva da Primavera”). Em 14 de abril de 1945, foi travada a mais sangrenta das batalhas, a de Montese, cidade a 1.200 metros de altitude, um verdadeiro “ninho de águias”. A sua conquista, por isso, exigiu muito denodo e inaudita bravura dos Pelotões de Infantaria e do Esquadrão de Cavalaria Mecanizado. Capturamos 107 prisioneiros e sofremos 426 baixas, aí inclusas as ocorridas na fase preliminar dos combates, cumprindo lamentar a morte de 3 heroicos Infantes: o tenente Ary Rauen, o Aspirante Francisco Mega e o Sargento Max Wolff Filho (em missão de patrulha de reconhecimento na antevéspera do combate). Para que não percamos a fluidez da leitura, ao depois abordaremos as ações dos citados heróis e mais as do também heroico tenente-coronel de Infantaria Nestor da Silva (promovido por bravura e em combate, pelo general Mascarenhas de Moraes, de 2° sargento a 2º tenente); ele, após a guerra e ao longo de sua brilhante vida militar, concluiu o curso básico de paraquedismo! Hoje, do alto de seus 108 anos de existência, é, sem dúvida, um notável exemplo para as novas gerações de militares e civis do Brasil! A 4ª fase foi a da ‘Perseguição’ ao inimigo – em rápida retirada ao Sul do rio Pó, e se desenvolveu na direção geral Vignola – Alexandria. A Divisão progrediu com incrível velocidade, pois utilizou, por feliz decisão de seu comandante, os caminhões da Artilharia, a fim de transportar os infantes, rapidamente, para a região de Collechio-Fornovo-Respício. Em Fornovo di Taro (província italiana de Parma, banhada pelo rio Taro – um longo afluente do rio Pó), deu-se, em 28, 29 e 30 de abril de 1945, a Rendição ou Capitulação, incondicional e em combate, da 148ª Divisão de Infantaria e remanescentes da 90ª Divisão Panzer Granadier, ambas do Exército alemão, comandadas pelo general Otto Freter Pico, e da Divisão Bersagliere “Itália”, ao comando do general Mário Carloni. [Sugerimos que acompanhem o texto linhas antes apresentado, com o auxílio do importante, belo e colorido mapa/documento “Roteiro da F.E.B. na Campanha da Itália”, assinado pelo marechal Mascarenhas de Moraes, na copiosa literatura a respeito da Força Expedicionária Brasileira; analisaremos a Rendição alemã-italiana no próximo artigo].
Coronel Manoel Soriano Neto – Historiador Militar
Origem: https://www.rsnoticias.top/2026/02/a-gloriosa-forca-expedicionaria.html