Por Alex Pipkin, PhD em Administração
Antes da primeira nota ser aberta, eu já sabia onde aquilo ia terminar. Não era vidência, era puro instinto.
Quando a arte popular troca a ambiguidade pela cartilha, a vibração muda. E essa não mente.
Bingo: Acadêmicos de Niterói e sua tentativa de propaganda lulopetista foram para o lugar que mereciam; o rebaixamento.
Há quem cite Gustave Le Bon para dizer que a multidão é emocional e facilmente conduzida. Sempre achei essa leitura preguiçosa. A multidão é emocional, sim, mas tem faro. Ela pode se deixar arrebatar; não gosta de sentir a mão que a empurra. Quando o símbolo nasce com dono, quando o enredo vem com intenção ideológica explícita, programática, panfletária, algo nasce quebrado. O encanto não resiste à pedagogia.
Vivemos na era dos sentimentalismos baratos. Indignações instantâneas, aplausos automáticos, comoções que duram menos que um feriado prolongado. O sentimentalismo barato produz estrago, inflamando, dividindo, e espalhando faíscas. Mas não cria laço. É incêndio de palha, alto, vistoso e curto.
Identificação profunda é outra coisa. Ela não berra, enraíza. Não mobiliza por choque; mobiliza por reconhecimento. É a identificação que cria vínculo, aquilo que sustenta uma manifestação popular de pé. Sem vínculo, resta espuma. A espuma não atravessa a quarta-feira.
Ideologia rígida não combina com arte popular. Arte é sugestão, camada, convite. Ideologia é conclusão pronta, frase sublinhada, dedo apontado.
Quando a conclusão chega antes da criação, o público deixa de participar. E sem participação não há entrega, inexiste adesão.
Propaganda funciona enquanto parece espontânea, simplesmente “tocando a alma”. Quando se exibe como propaganda, orgulhosa da própria intenção, perde mistério. Emoção dirigida demais soa ensaiada. Evidente que o público percebe o ensaio como truque.
A avenida pode acolher crítica, política, provocação. O que ela não tolera é sermão com fantasia. Não é gabinete com confete, nem palanque com pluma.
É território de experiência compartilhada, que não aceita cabresto simbólico.
O rebaixamento não foi acidente técnico. Foi consequência estética e psicológica. A nota apenas formalizou o que já estava no ar. Claro, magnetismo não se decreta.
No final, a avenida faz o que sempre fez.
Até sorri para o discurso, dança com a fantasia, deixa passar o burburinho.
Mas quando a música cala e a ficha cai, ela cruza os braços. E dá nota.
Não para a ideologia, mas para a verdade que sobreviveu ao desfile.
A avenida pode até perdoar o exagero.
O que ela não absolve é o sermão — ainda que venha fantasiado de redenção vermelha — disfarçado de samba.
Pontocritico.com
Origem: https://www.rsnoticias.top/2026/02/a-avenida-sente-o-panfleto-190226.html