Uma das indagações é quanto ao futuro do país sul-americano
Por Jurandir Joares
Uma das indagações que mais tem sido feitas nos últimos tempos diz respeito ao futuro da Venezuela, depois da ação do governo Trump que sacou o ditador Nicolás Maduro do poder. Desde a ação desfechada a 3 de janeiro, a Venezuela ficou numa situação híbrida, com a vice-presidente Delcy Rodriguez assumindo a presidência, sob a tutela dos Estados Unidos.
Seu principal ponto de apoio interno é o irmão, Jorge Rodriguez, que preside a Assembleia Nacional. Curiosamente, os dois homens fortes do país depois de Maduro, Diosdado Cabello, encarregado da Segurança, e Vladimir Padrino, ministro da Defesa, têm se mantido calados. Não se pronunciaram nem mesmo contra as ações que Trump vem desenvolvendo com vistas a recuperar para as empresas americanas a exploração do petróleo venezuelano.
CONTESTAÇÃO
Nesta semana, Delcy Rodriguez resolveu mostrar independência, contestando a ingerência dos Estados Unidos em seu governo. “Basta de ordens”, disse ela, acusando os EUA de tentar impor decisões ao país. “Deixemos que a política venezuelana resolva nossas diferenças e conflitos internos. Chega de potências estrangeiras.” Ela falava numa cerimônia de trabalhadores petroleiros. E aí fica a dúvida, se o discurso era verdadeiro ou tinha apenas o objetivo de jogar para uma plateia interna.
Até porque, pelo que se observa, Delcy vem agindo ao agrado de Trump. Uma de suas principais ações foi trocar 12 generais de comandos militares. Ou seja, teoricamente, afastou os mais ferrenhos defensores do chavismo e colocou militares supostamente aliados a ela nos cargos. Ao mesmo tempo, desde que assumiu, tem tratado de atender outra exigência do governo Trump: a libertação de presos políticos. Sabe-se que o número chegava perto dos 2.000. Muitos já foram soltos. Só nesta semana foram mais 104 libertados.
ROMPIMENTO
Relatório do setor de Inteligência dos EUA põe em dúvida a cooperação de Delcy. Porém, esta dúvida se baseia na falta de tomada de uma decisão mais radical, que, na realidade, não parece ser o momento apropriado para tomar: o rompimento da Venezuela com aliados tradicionais, como Irã, China e Rússia. Inclusive com a expulsão dos diplomatas daqueles países. Não se pode esquecer que representantes desses três países estiveram na cerimônia de posse de Delcy na presidência.
Esse rompimento estaria inserido na aplicação da nova doutrina que Trump criou para a região e que ganhou o nome de Doutrina Donroe. Ou seja, seria um resgate da Doutrina Monroe com o acréscimo do nome Donald simplificado. E essa doutrina visa especificamente acabar com a influência de Irã, China e Rússia no continente americano.
MATURAÇÃO
Diante das dúvidas sobre a Venezuela, o secretário de Estado Marco Rubio foi chamado, nesta quarta-feira, a prestar depoimento perante o Senado americano. Considerando que houve uma indignação dos congressistas pelo fato de não terem sido consultados sobre a operação desfechada em Caracas, que resultou na captura de Maduro.
Rubio procurou contemporizar, dizendo que o processo venezuelano é lento. “Em três semanas estamos muito mais avançados do que imaginávamos que estaríamos”, afirmou. “Temos de entender que não se trata de uma refeição congelada, que você coloca no micro-ondas e fica pronta. É uma situação complexa e demorada.”
OPOSIÇÃO
Uma cobrança que é feita ao governo Trump, desde a destituição de Maduro, é sobre o papel da maior líder da oposição da Venezuela, Maria Corina Machado. Rubio argumentou: “As pessoas que controlam as armas estão nas mãos deste regime”, disse o secretário, em referência ao alinhamento do alto escalão militar ao chavismo. Lembrando que Trump chegou ao absurdo de dizer, logo após o golpe, que Maria Corina não tinha representatividade na Venezuela. Ora, a representatividade dela é “tão pequena”, que, impedida de concorrer, impulsionou a eleição do indicado por ela Edmundo Gonzalez Urrutia. Mas, segundo Rubio, o papel a ser desempenhado por Maria Corina será definido “depois que as coisas se ajeitarem no país”.
Enfim, o futuro da Venezuela ainda é muito incerto. E não se descarta uma reversão da situação com o chavismo voltando ao domínio absoluto. A não ser que seja realizada uma nova e forte ação militar dos EUA, possibilidade que foi negada por Rubio na conversa com os congressistas.
Correio do Povo