RS Notícias: O SILÊNCIO PREMIADO – 20.01.26

 Por  Alex Pipkin, PhD em Administração

 

A polêmica em torno de Wagner Moura, como quase sempre, não é o filme. É a declaração. E, como quase sempre, ela gira em torno das ditaduras certas.
Sim, daquelas já enterradas, domesticadas pelo tempo, seguras para serem condenadas sem risco. A controvérsia parece interminável não porque o tema seja complexo, mas porque a seletividade moral se transformou em um — mau — hábito. É daí que tudo começa.
Há ditaduras que ocupam o imaginário cultural com eficiência simbólica. A ditadura militar brasileira, por exemplo, tornou-se presença recorrente em discursos enfáticos, roteiros eloquentes e cerimônias solenes. Nesse sentido, é preciso reconhecer que Wagner Moura é do métier, tem experiência comprovada, conhece o ofício e domina a linguagem. Como ator, demonstra talento de sobra. Ele vem, há anos, expondo o caráter nefasto daquele período passado, e o faz com competência técnica e convicção estética.
O que chama atenção não é isso. O que constrange é a curadoria moral do horror. É curioso — ou revelador — como apenas esse tipo específico de ditadura, retrospectiva, segura no tempo e inofensiva ao presente, parece digna de circular no mercado cultural. Ditaduras vencidas rendem aplausos. Ditaduras em curso rendem silêncio. E o silêncio, curiosamente, é premiado.
Por que não um filme sobre Cuba? Não o cartão-postal folclórico, mas o cotidiano real, encharcado de censura, miséria, dissidentes presos, gerações inteiras confinadas à escassez e ao medo. Por que não a Venezuela de Maduro, onde prisões políticas são banalizadas, a fome deixou de ser nota de rodapé e um terço da população precisou fugir do país? Quando se fala na captura de Maduro, escandalizam-se em nome da soberania. A soberania, nesse caso, está muito, mas muito bem cuidada. O povo, grotescamente, nem tanto.
O problema não é falta de roteiro. A realidade escreve sozinha. O problema é que esses roteiros exigiriam confrontar o próprio campo, e isso não rende tapete vermelho. Rende constrangimento. Constranger o próprio campo se transformou no maior pecado artístico.
Há também o verniz institucional, essa “respeitabilidade” de notas técnicas, carimbos solenes e juridiquês formal — muitas vezes mal escrito — que apenas concede toga ao arbítrio. Políticos disfarçados de ministros, amigos do amigo do meu amigo, operam prodígios surreais. Esses protegem interesses espúrios e libidinosos em nome da legalidade abstrata, enquanto chamam censura de zelo democrático. Igualmente, de defesa do Estado democrático de Direito.
Talvez por isso esses filmes não existam. Não falta talento. Como ator, Wagner Moura demonstra isso com sobra. Falta coragem. Falta disposição para perder convites, prêmios e a confortável unanimidade do aplauso “progressista”. O silêncio, afinal, segue sendo a escolha mais segura. Como se vê, segue sendo amplamente recompensado.
É, por isso, no mercado cultural, a coragem ainda não dá prêmio, mas o silêncio, quase sempre, garante o “nobre” pertencimento.

Pontocritico.com

Origem: https://www.rsnoticias.top/2026/01/o-silencio-premiado-200126.html

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